3. INTERNACIONAL edio especial 45 anos set.2013

1. EM BUSCA DA NORMALIDADE
2. SILNCIO, ATRASO E TIRANIA
3. O MILAGRE DO HOMEM DA MANCHA
4. BERLIM, A CIDADE ABERTA
5. AS TEMPESTADES NO DESERTO
6. O CORREDOR AUTORITRIO

1. EM BUSCA DA NORMALIDADE

RANCOR E TENSO
1 de abril de 1970
Na primeira das trs entrevistas que publicaria com Yasser Arafat, presidente da Organizao para a Libertao da Palestina (OLP)  as outras sairiam em 26 de agosto de 1981 e 14 de junho de 1989 , VEJA registrou que, frequentemente, o comandante substitua "a anlise poltica mais objetiva" pelo puro "rancor". Colocando-se sempre numa atitude de confronto  "Vocs, ocidentais, no acreditam em nada do que dissemos", disparou, a certa altura da tensa conversa , Arafat, em diversos momentos, se negou a responder a perguntas que levavam em conta sua vida pessoal.

TRECHO
"VEJA  Concluindo, o Al-Fatah no quer a paz que todos desejam. 
Arafat  No. No queremos a paz. Queremos a guerra, a vitria. A paz, para ns, significa a destruio de Israel e nada mais. O que vocs chamam paz  paz para Israel e os imperialistas. Para ns,  angstia e vergonha. Combateremos at a vitria. Dezenas de anos, se assim for necessrio." 
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Na falta de uma soluo iminente para o conflito entre os seus povos, que se arrasta h dcadas, os palestinos e os judeus de Israel aperfeioam-se na arte de viver lado a lado sem conviver.
DIOGO SCHELP, DE JERUSALM

     Na sada de uma base militar israelense prximo s fronteiras com a Faixa de Gaza e com o Egito, pouco mais de dez soldados pedem carona sob o calor de 35 graus  sombra de uma das raras rvores do Deserto de Negev para ir passar o fim de semana na casa dos pais. Como  hbito entre os jovens israelenses que prestam os trs anos do servio militar obrigatrio, eles viajam fardados para conquistar a simpatia dos motoristas. Apenas dois esto  paisana, justamente os nicos palestinos do grupo. Em um pas em que a identificao tnica e religiosa pode ser adivinhada pela maneira de falar, pelo nome e s vezes at pelas feies, a farda israelense no serviria de disfarce para os dois rabes muulmanos, e eles provavelmente sofreriam alguma agresso no longo caminho para a sua aldeia na Galileia, no norte. Afinal, para os palestinos de Israel, servir no Exrcito do seu pas equivale a servir ao inimigo. 
     At poucos anos atrs, as tenses e lutas entre Israel e os seus vizinhos rabes eram chamadas, genericamente, de "o conflito no Oriente Mdio". Durante dcadas, considerou-se que esse antagonismo estava no cerne de todos os problemas da regio, e sua soluo era uma prioridade da comunidade internacional. O lder palestino Yasser Arafat (1929-2004) foi o mais persistente protagonista desse perodo, e o que ele dizia influenciava a evoluo de pensamento dos inimigos do estado judeu. Atualmente, "conflito no Oriente Mdio" poderia perfeitamente servir para designar desde a guerra civil na Sria at as reviravoltas polticas violentas no Egito. Enquanto outros conflitos regionais disputam a ateno do mundo, o original, este entre israelenses e palestinos, se acomoda num contexto em que uma soluo definitiva  cada vez mais improvvel e, para muitas pessoas, at indesejvel. 
     Nenhum outro grupo vive to intensamente o dilema entre a acomodao  realidade existente e a busca por uma paz idealizada do que o 1,3 milho de rabes cristos ou muulmanos que compem a populao de Israel, ou 17% do total. O estado se refere a eles como rabes-israelenses, mas muitos preferem ser chamados de "palestinos com cidadania israelense". Trata-se da maior minoria no judia de Israel. H tambm os drusos, uma dissidncia milenar do islamismo, e os bedunos, um povo nmade majoritariamente muulmano, que representam 1,6% e 2,3% da populao, respectivamente. Os palestinos de Israel so, tecnicamente, cidados israelenses, com direito de votar e de usufruir os servios pblicos do estado judeu. Mas, histrica e culturalmente, se identificam com os seus compatriotas de Jerusalm Oriental (que vivem sob administrao mas sem cidadania israelense), da Cisjordnia (territrio gerido por palestinos, mas sob ocupao militar de Israel) e da Faixa de Gaza (governada por palestinos, mas cercada por Israel). Por seu status especial, que lhes d uma liberdade e um padro de vida superiores aos dos palestinos dos territrios ocupados, os rabes-israelenses se sentem em dvida com os seus pares. Ao mesmo tempo, no aceitariam abrir mo da cidadania israelense por nada, nem pela possibilidade de ir viver em um futuro estado palestino. "Se a Autoridade Palestina, que administra a Cisjordnia, e o governo israelense algum dia chegarem a um acordo de paz e isso for a consulta popular, os rabes de Israel podem votar contra se perceberem que correm o risco de ficar do lado palestino da fronteira", diz o socilogo Sammy Smooha, da Universidade de Haifa, coordenador de uma pesquisa de opinio anual sobre as relaes entre rabes e judeus em Israel. Uma parte dessa preferncia tem uma razo bastante concreta e fcil de compreender: os rabes-israelenses habitam essas terras desde antes da criao do estado de Israel, em 1948. A outra parte do apego  cidadania da nao inimiga  mais subjetiva e difcil de admitir: em muitos aspectos, pelo processo de integrao gradual que vem ocorrendo desde a dcada de 70, eles tm mais afinidade com a sociedade construda pelos judeus do que com a dos palestinos dos territrios ocupados. Os rabes de Israel vivem entre o desejo de ser aceitos socialmente, como  o caso dos dois militares muulmanos citados no incio desta reportagem, e o medo do que chamam de "normalizao", ou seja, de trair a prpria identidade ao se deixar absorver plenamente pela sociedade israelense. 
     Razes objetivas para se sentirem  margem no faltam,  verdade. Os  rabes so discriminados ao tentar abrir uma conta no banco, ao pedir autorizao do estado para expandir suas aldeias e ao procurar emprego em empresas de donos judeus. Segundo uma lei de 2003, se um cidado rabe se casar com uma palestina da Cisjordnia, "do territrio inimigo", no poder traz-la para viver em Israel. Os rabes comparam isso  Lei do Retorno, que d direito a qualquer judeu de emigrar para Israel, e concluem que de fato so cidados de segunda classe. Mas, se reclamam da falta de direitos iguais, os rabes-israelenses tambm relutam em abraar os deveres da cidadania plena, como o servio militar, que para eles  facultativo, ou em fazer concesses simblicas para deixarem de ser vistos como inimigos internos pelos judeus. Para ganharem a confiana do restante da populao, apenas 17,5% desistiriam de chamar a data da criao do estado de Israel de "dia da catstrofe", por exemplo. 
     O escritor israelense David Grossman escreveu que os rabes e os judeus de Israel tm medo mortal uns dos outros: "Esse temor parece agora ser a nica coisa que os conecta". Mais da metade dos judeus preocupam-se especialmente com as altas taxas de fecundidade das mulheres rabes. Ou seja, temem se tornar uma minoria em seu prprio pas. Entre os rabes, sete em cada dez apavoram-se com a ideia de ser transferidos para outro lugar. Est a outra coisa que os conecta: o senso de pertencimento  mesma terra. Eles esto tentando aprender a conviver com isso. 

PAUSA DA TORA - Judeus ortodoxos jogam basquete em Jerusalm: os mais puristas no trabalham, e so sustentados pelo estado para se dedicar aos estudos religiosos.
JUNTOS, MAS SEPARADOS - Em um parque fora dos muros da Cidade Velha de Jerusalm, crianas judias e rabes brincam em uma fonte, quase sempre em lados opostos. Os pais assistem  diverso tambm sem se misturar, ignorando-se mutuamente.

EM ARMAS PELO ESTADO JUDEU
O primeiro-sargento Salem Abu Ismail, da Companhia 585,  um dos raros palestinos muulmanos do Exrcito israelense. Trs dos seus irmos seguiram seus passos. Quando ele se alistou, a famlia reagiu com espanto. "'Esse no  o nosso Exrcito, o que voc vai fazer l, matar nossa prpria gente?', diziam eles", recorda Salem, de 24 anos. "Mas no estou interessado em poltica, apenas em garantir um sustento que antes eu no conseguia por falta de oportunidades." Os primos quiseram linch-lo quando ele entrou fardado pela primeira vez na aldeia. 

MISS ISRAEL MUULMANA?
Mimas Abdelhai, de 20 anos, sente-se uma estrangeira no prprio pas, apesar de ser uma exceo entre os rabes de Israel. De famlia muulmana rica, frequentou escolas judaicas desde a primeira infncia. Sua melhor amiga, Debbie Cahn (de trana, na foto com Tel-Aviv no fundo),  judia. Isso no faz Mimas ser aceita como uma israelense plena, mas basta para que seja considerada pelos palestinos "israelizada" demais. Ela cursa contraterrorismo na Universidade de Herzliya e quer disputar o ttulo de Miss Israel. "Enfrentarei a resistncia de judeus, que acham que uma rabe no pode represent-los, e de muulmanos, por carregar a bandeira de Israel e por desfilar de biquni", diz Mimas. 

MAIS FILHOS - Festa reservada s mulheres em um casamento tradicional de palestinos muulmanos na Cisjordnia: at 2030, haver mais rabes do que judeus entre o Mediterrneo e o Rio Jordo.

O ESTIGMA DO NOME RABE
A cantora, compositora e atriz Mira Awad, de pai palestino cristo e me blgara, acredita que no viver o dia em que os rabes tero o mesmo tratamento dos judeus. Como eu, uma artista palestina que chegou ao mainstream israelense, posso falar em discriminao? poder Mira, que em 2009 representou Israel no Eurovision, um concurso musical internacional, em parceria com Noa, uma cantora judia.  Para responder  prpria pergunta, ela conta que no comeo da carreira a TV israelense s a convidava para interpretar terroristas ou faxineiras e que os artistas rabes ficam desempregados quando a relao de Israel com os vizinhos se torna tensa.

ESSE CONFLITO  MESMO UM FLA-FLU
Como atacante da seleo de futebol de Israel, o rabe muulmano Abbas Suan marcou um gol nas eliminatrias de 2005 que quase deu ao pas uma vaga na Copa do Mundo. Ele no foi recebido como heri na volta. As torcidas dos times judeus estendiam faixas dizendo que ele no podia ser considerado israelense. No ajudava o fato de Abbas se negar a cantar o hino nacional. "A letra s fala dos judeus e no faz referncia aos outros povos que compem o pas", diz Abbas, hoje tcnico da equipe juvenil do Bnei Sakbnin, um clube rabe que inclui jogadores judeus.


2. SILNCIO, ATRASO E TIRANIA
Nada, em toda histria da humanidade, mudou to depressa como a China das ltimas quatro dcadas, envolvendo tanta gente e invertendo to brutalmente o peso mundial das naes.

     Em outubro de 1971, quando trabalhava como correspondente de VEJA em Nova York, o jornalista J.R. Guzzo, hoje colunista e colaborador da revista, recebeu a instruo de ir at Ottawa, a capital do Canad, para executar uma tarefa que ficava entre o altamente improvvel e o quase impossvel: obter um visto de entrada na China para cobrir a visita do presidente americano Richard Nixon, marcada para fevereiro de 1972, Deveria ser, e de fato acabou sendo, uma das operaes diplomticas mais decisivas do sculo XX. 

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NA ROTA DA PAZ
23 de fevereiro de 1972
Entre os veculos da imprensa brasileira, s VEJA acompanhou de perto a visita de Richard Nixon  China, onde o presidente americano se reuniu com o lder comunista Mao Ts-tung. Foram cinco dias de um intenso programa em Pequim. Se, no incio, havia receio quanto ao resultado da viagem, ele foi se desfazendo conforme a pauta de conversaes avanava. Em meio a sorrisos de ambas as partes, apertos de mo e brindes com aguardente de trigo, Nixon e Mao dariam, como atestou a revista em outra edio, a de 1 de maro, "os primeiros passos na direo de uma paz mundial menos instvel". 

TRECHO Talvez tudo seja histrico, grandioso, indito demais. Ao pousar na pista gelada do aeroporto de Pequim, o avio presidencial de Richard Nixon, 'Spirit of '76', ter percorrido 16.000 km, num voo pioneiro de trs dias e meio. A data  na qual j se comemora o aniversrio de George Washington  foi balizada pelo Congresso dos EUA de Dia de Orao Nacional pela Paz Mundial. Pela primeira vez na histria, o presidente da nao mais poderosa do mundo pisa no pas mais populoso da Terra, numa aventura poltica comparvel ao primeiro passo do homem na Lua. (...) Nunca dois homens que encarnam to dramaticamente o conflito de foras na histria moderna, como Richard Nixon e Mao Ts-tung, aproximaram-se, em p de igualdade, para alterar a estrutura do poder mundial." 
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     A concluso oficial e solene da paz entre os Estados Unidos, o pas mais poderoso do mundo, e a China, o mais populoso, ambos donos de armas nucleares e h mais de vinte anos inimigos mortais, foi o ponto de partida para o fim da Guerra Fria entre as grandes potncias, o encerramento da Guerra do Vietn, a semente para o desmanche mundial do comunismo e, possivelmente, a pedra fundamental para a construo do mundo tal como ele  hoje. 
     As chances de um rgo de imprensa brasileiro estar presente na cobertura de um espetculo desse porte oscilavam em torno do zero  acompanhar a visita de Nixon era algo permitido exclusivamente aos veculos americanos de maior prestigio, e controlado com cuidado neurtico pelo regime mais totalitrio ento existente sobre a face da Terra. Mas VEJA, naquela poca como agora, sempre ia em todas as bolas, por mais perdidas que fossem. Enviou seu correspondente ao Canad, onde funcionava a Embaixada da China mais prxima aos Estados Unidos (e uma das poucas existentes no mundo de ento), candidatou-se a participar da cobertura com argumentos que o jornalista foi improvisando na entrevista com o pequeno e praticamente mudo diplomata chins que o recebeu em Ottawa (argumentos que ele prprio, hoje,  incapaz de lembrar quais foram) e passou a esperar. No comeo de fevereiro de 1972, quando ningum mais se lembrava do assunto, o "representante da revista" que havia pedido para acompanhar a visita presidencial foi convocado a comparecer  Embaixada da China em Santiago, a nica que o pas mantinha na Amrica do Sul, para receber seu visto de entrada e a licena para trabalhar na cobertura. Nesta edio, 45 anos depois, VEJA convidou seu colaborador a reviver algumas das lembranas que guardou da distante viagem feita  China em 1972. A esto elas. 

     A coisa mais prxima de uma viagem  Lua que um homem podia fazer nas alturas de 1972 era ir  China. Se esse homem fosse brasileiro, praticasse o ofcio do jornalismo e tivesse 28 anos de idade tudo se tornava mais complicado ainda. A China, lugar ao qual se pode ir hoje como quem vai  Ilha de Paquet, digamos, era naquela poca o pas mais fechado do mundo  o mero fato de ser pego l dentro sem todas as autorizaes oficiais era infrao gravssima, que podia perfeitamente terminar com uma discreta bala na nuca em algum poro do governo. Praticamente ningum tentava. Os rarssimos vistos de entrada ento concedidos no eram disponveis para gente indesejvel como so os jornalistas em geral, muito menos jornalistas de um pas que os chineses consideravam de quinta categoria, como o Brasil, e com idade insuficiente para ter acumulado quaisquer mritos na vida. Mas entre as mentes dos mandarins da ditadura chinesa e suas decises, pelo menos no passado, provavelmente havia mais coisas do que supe a nossa v filosofia  e uma delas foi essa permisso para entrar num pedao do planeta que parecia pertencer a outro corpo do sistema planetrio. Pertencia, de qualquer forma, a outra poca da histria:  China dos imperadores que existiu at o sculo XIX, o "Imprio do Meio", no qual nenhum estrangeiro podia entrar, salvo para ficar uns poucos dias comerciando em pequenas reas do litoral e sumir do mapa em seguida. 
     Com a tomada do governo pelos comunistas em 1949, sob o comando de Mao Ts-tung (por gentil licena  da direo da revista, o autor deste artigo foi autorizado a utilizar a antiga grafia das palavras chinesas; para dizer "Pequim", por exemplo, ser escrito "Pequim"), acabara a desordem internacional das dcadas anteriores e a China voltou a ser um pas proibido. Quem est fora no entra, quem est dentro no sai  esse era o nome do jogo. O resultado foi a construo de um pas incompreensvel, que comparado  China de hoje parece francamente cmico. Comeando pelo comeo: a nica maneira de entrar na China em 1972, para mortais comuns como o grupinho de uma dzia de jornalistas no americanos autorizados a cobrir a visita de Nixon, era a p. Depois de tomar um trem severamente matinal na ento colnia britnica de Hong Kong, os passageiros desembarcavam s 8h35 na estao de Lo Wo, o ltimo posto de Sua Majestade antes da fronteira terrestre com o territrio chins, e caminhavam uns bons 300 metros em terra de ningum at chegar a uma escura ponte de ferro sobre o Rio Samsum, a divisa oficial entre Ocidente e Oriente. Bem no meio da ponte, enfim, tinha-se a primeira viso do mundo proibido que se estendia no horizonte: um cordo de soldados do Exrcito Vermelho, fardados de verde com tecido de terceira categoria, que recolhiam os passaportes (a ser devolvidos s no momento de voltar para casa) e, com um sinal de mo, mandavam o grupo seguir em frente. No fim da ponte, outro pequeno peloto militar encaminhava os viajantes ao salo da maior casa do local. Ali, sitiados por escarradeiras e bules de ch, ficavam at a hora de ser trancados num outro vago de trem e despachados para a grande cidade de Canto (uma avenida de asfalto padro periferia, coberta de poeira e cercada pelo que parecia ser uma favela sem fim), de onde tomariam um DC-3 para cinco horas de voo at Pequim e ao trabalho de reportagem que os esperava. 
     Era isso a  apenas uma caminhada em cho de terra batida, e o ingresso numa mquina de processar gente. Nada de "Welcome to China''. Nada de aeroportos de ltima gerao como o de Pudong, na Xangai de hoje, ligado  floresta de edifcios com at 500 metros de altura que se abre  sua frente por um trem-bala capaz de correr a mais de 400 quilmetros por hora. Nada de free shops abarrotados de Vuitton, Gucci e Ferragamo. Os aeroportos eram pistas de asfalto cercadas por pouco mais que galpes para os raros passageiros. O nico shopping disponvel no aeroporto de Canto era um balco de 3 metros de comprimento fechado por placas de vidro, no qual estavam  venda uns poucos sabonetes, maos de duas ou trs marcas de cigarro sem filtro, alguns pentes de plstico desses mais ordinrios e um ou outro produto que um camelo da paulistana Rua 25 de Maro teria vergonha de colocar  venda  uma coisa de cortar o corao, realmente. O servio de bordo ao voo para Pequim propunha dois itens: chicletes (duas unidades) e uma mexerica-an. Em terra, a ideia de que a capital da China pudesse ter um dia 5 milhes de carros em circulao, como tem hoje, a includas esquadras de Ferrari e Bentley, seria demncia em estado puro  simplesmente porque Pequim, na ocasio, no tinha nenhum automvel particular. "Nenhum", aqui, quer dizer nenhum mesmo. Havia nibus. Havia uns artefatos, aparentemente de ferro e com cara de automvel, que serviam para as altssimas autoridades. Havia, at, um limite de velocidade (25 quilmetros por hora), de utilidade desconhecida, j que no existia trfego; era respeitado com o mximo de ateno, o que fazia um passarinho voar mais depressa do que qualquer veculo automotor em circulao. Mas carro particular no havia  da mesma forma como nas grandes cidades brasileiras de hoje ningum, nem o empresrio Eike Batista, tem uma nave espacial para ir de casa ao escritrio. As estatsticas oficiais diziam que havia "40.000" automveis privados na China daqueles tempos; nesse caso deveriam estar todos no rodzio durante a visita de Nixon, porque no podiam ser vistos. Hoje, apenas quarenta anos depois, a frota da China  de 240 milhes de veculos. Seu PIB, superior a 8 trilhes de dlares, s  superado pelo dos Estados Unidos. Na verdade, o mundo atual  simplesmente invivel sem esse pas que at h pouco no existia. 
     A anomalia mais imediata desse mundo sem motores, para quem vinha de outros pases, era um aflitivo silncio nas ruas. Percorria-se Pequim, Xangai ou Nanquim de ponta a ponta sem ouvir o barulho de um motor ou escapamento  o nico rudo presente nas ruas vinha do deslizar das bicicletas e da voz humana. Tambm havia, para o estrangeiro, o perturbador impacto de observar na vida real as consequncias da maior tentativa jamais feita na histria, provavelmente, para criar uma sociedade sem nenhuma diferena visvel entre os cidados. A ferramenta mais eficaz para isso, no entender do presidente Mao e dos degraus superiores do Partido Comunista, foi obrigar todo mundo, inclusive eles prprios, a se vestir com a mesma roupa. Boa ideia, pensando bem: nada diferencia tanto as pessoas, num olhar imediato, quanto o traje que vestem. Roupa igual, tudo igual  eis a questo, conforme o raciocnio maoista. E no  que funcionava? Funcionava s nas aparncias,  claro, porque ningum ia achar que Mao ou seu genial primeiro-ministro Chu En-lai levavam a mesma vida que um varredor de rua  at porque o seu "terninho Mao" tinha um tecido melhor e um corte mais caprichado. Mas o essencial, justamente, era criar as aparncias. Na impossibilidade concreta de criar a igualdade entre 750 milhes de pessoas, ou seja l quanta gente fosse, criava-se a impresso de igualdade  eis a mais um problema resolvido. Uma consequncia divertida disso era a curiosidade sem limites que um indivduo vestido com outro tipo de roupa despertava nas multides de chineses em perptuo movimento pelas ruas das grandes cidades. Em Xangai, por exemplo, o correspondente de VEJA recebeu duas entusiasmadas e espontneas salvas de palmas numa caminhada de meia hora pelo centro; para muitos, supe-se, era a primeira vez na vida que viam algum vestido com trajes diferentes.  
     Quem acha que o Brasil de hoje  um pas pobre  e  mesmo  pode ter uma certeza com teor de verdade de 100%: o Brasil de quarenta anos atrs era vrias vezes pior. Por pior que fosse, porm, era melhor que a China no quesito pobreza. Praticamente em toda a zona rural, por onde se olhasse, a produo se movia em carroas  no as carroas do ex-presidente Fernando Collor, mas carroas mesmo, puxadas por mulas e bois. Barcos de carga, quando tinham de navegar rio acima, eram puxados por cordas e no brao por duas turmas de homens, uma em cada margem. Em zonas menos prsperas que essas, os produtos eram empilhados direto nas costas de algum  o critrio, a, parecia ser o de quem pode mais carrega mais. Nas "lojas do povo" das grandes cidades havia com certeza povo, mas no havia realmente uma loja  apenas pilhas de mercadorias de primeira necessidade, ou sem necessidade alguma, que as fbricas iam despejando ali, sem perguntar se os compradores queriam ou no comprar o que entregavam. Os brinquedos chineses, que hoje correm o mundo inteiro, eram desconhecidos das crianas chinesas. Elas praticamente s brincavam com objetos improvisados  caixas de remdios, carretis descartados, bolas de papel amassado. As casas, no interiorzo, eram iluminadas a querosene, cozinhava-se em fogo a lenha, e o cho era de terra batida. Os trabalhadores autorizados a falar com jornalistas estrangeiros s vezes exibiam, como prova da bonana distribuda pelo regime, relgios de pulso  mas nessas ocasies dava para notar que estavam parados. Um radinho de pilha era um item de luxo. 
     Junto com esse curso de imerso total na pobreza, o visitante da China de 1972 fazia outro, este de ps-graduao avanada: aprendia-se nele o que  na vida real o convvio dirio e direto com uma tirania de primeiro grau. Continuam vivas na memria de muita gente, at hoje, as imagens do rebelde solitrio nas manifestaes de 1989 na Praa da Paz Celestial, em Pequim, bloqueando de peito aberto o avano de um tanque de guerra. Pouco mais de dez anos antes, quando o comunismo de Mao comeava a ser substitudo pelo comunismo capitalista de hoje, no haveria nenhum tanque na praa  porque no haveria manifestao nem rebelde algum, com ou sem camisa. Ao entrar na China, no ano da visita de Richard Nixon, o viajante estrangeiro era anexado a um intrprete que o acompanhava todos os dias, de manh  noite, at a hora de ir embora  e que, ainda que executasse mesmo a funo de intrprete, tinha a expresso "polcia secreta" gravada na testa. (Um deles falava bastante bem o portugus; aquela era a primeira vez na vida em que encontrava uma pessoa de fala portuguesa. Tinha aprendido tudo apenas com discos, sozinho, sem professor ou qualquer outro tipo de apoio. Com uma proeza de disciplina e fora de vontade como essa em sua biografia, era o tipo do sujeito a ser levado a srio.) Durante trs semanas na China (o visto de permanncia foi ampliado para alm da visita presidencial), no foi possvel falar com um nico ser humano, ou ir a qualquer lugar, sem a presena de um desses agentes dos servios de segurana. Um deles, indagado na hora do jantar sobre a possvel presena na China, desde 1964, de um jornalista brasileiro ali exilado, ficou em silncio uns poucos segundos e respondeu: "Essa pessoa no existe". Alguns segundos depois, resolveu acrescentar: " um crime grave contra as leis chinesas tentar entrar em contato com pessoas no autorizadas". Que diabo poderia ser uma "pessoa no autorizada"  e, de qualquer jeito, o que adiantaria procur-la, se ela no existia? Dessa vez a resposta veio em cima: "Eat your soup"  tome sua sopa. Fim de conversa. 
 uma sbria advertncia sobre nossas limitaes constatar, hoje, que nem os peritos mais srios, inteligentes e preparados no estudo da China nessa poca de trevas, gente que falava e lia correntemente o chins e passara a vida tentando entender o que acontecia por l, tenham imaginado que o pas de Mao poderia se transformar, um dia, no colosso que  hoje. Entende-se. Nada, em toda a histria da humanidade, mudou to depressa como a China desses ltimos 45 anos, envolvendo tanta gente e invertendo to brutalmente o peso mundial das naes  nem a Revoluo Industrial, que levou 100 anos para ganhar massa crtica e teve uma evoluo to gradual que talvez nem se possa cham-la, corretamente, de revoluo. Talvez, no campo das lembranas pessoais, nada ilustre to bem a dimenso estonteante dessa mudana e a rapidez com que ocorreu do que as circunstncias singulares do embarque do correspondente de VEJA de volta para casa. Assim como houve o choque da chegada, houve o choque da partida. Ela se fez num Boeing-707 da Air France, num voo Xangai-Paris, o nico existente na poca entre a China e o mundo contemporneo. Tratava-se de um voo semanal  isso mesmo, s havia um voo por semana ligando a China ao Ocidente, uma operao de prejuzos monumentais que o governo da Frana, ento acionista majoritrio da companhia, mantinha por razes de prestgio poltico. Antes do embarque, no desolado refeitrio do aeroporto, o jornalista e o intrprete-agente tomavam uma ltima xcara de ch  o homem, como se v, s se despediu na escada do avio. Numa outra mesa, a nica ocupada, a tripulao francesa (incluindo dois mecnicos em trajes de trabalho, pois qualquer problema teria de ser resolvido pessoalmente por eles), tambm esperava a hora da partida. Em um certo momento o comandante vem at a mesa e pergunta: "O senhor  o passageiro? Quando quiser embarcar, estamos prontos". E assim foi. Pela primeira, e obviamente nica, vez na vida, o passageiro em questo fez um voo absolutamente sozinho num Boeing-707  e num trajeto, Xangai-Paris, com mais de 9000 quilmetros. 
     Certas coisas s aconteciam com a China.


3. O MILAGRE DO HOMEM DA MANCHA

UM PROBLEMA ERA UM PROBLEMA
29 de julho de 1987 
Duas palavras em russo ainda estavam se espalhando pelo mundo depois de ser invocadas como os princpios-guia das reformas traadas pelo lder sovitico Mikhail Gorbachev: glasnost, equivalente a um abrandamento na censura das ideias, e perestroika, a reestruturao da economia ineficiente. O potencial transformador do homem que chamava um problema de problema foi retratado numa reportagem que falava em nova revoluo.

TRECHO "Gorbachev est colocando dentro da URSS aquelas perguntas duras, alimentadas na realidade e terrivelmente factuais, que, at agora, s eram feitas fora do pas e pelos mais incmodos crticos do regime sovitico. No tem sido fcil, para o mundo exterior, entender esse Gorbachev irrequieto, impaciente em seu desejo de ver as coisas se moverem e tomado de um vigor duplicado pelo contraste com a liderana velha e doente a que veio suceder. Exatamente o que ele quer e at onde est disposto a ir  eis uma questo que inquieta e apaixona.
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O mundo virou outro com Mikhail Gorbachev, que comeou querendo melhorar o regime comunista sovitico e terminou enterrando o comunismo.
VILMA GRYZINSKI

     Por aquilo que fez e, talvez em medida comparvel, aquilo que no fez, Mikhail Gorbachev foi o homem que provocou a maior reviravolta poltica dos 45 anos condensados neste nmero especial de VEJA. Praticamente tudo o que deixou de existir sob sua gide tinha letras maisculas e era importante: Unio Sovitica, Partido Comunista, Muro de Berlim, Guerra Fria, Comit Central e seu prprio e hoje quase nostlgico cargo, o de secretrio-geral. Quando despontou no radar mundial, em 1984, numa visita  Inglaterra pouco antes de se tornar o que ainda se chamava de czar vermelho, chamou ateno pela mancha escarlate na testa  um hemangioma  e pelas ideias intrigantemente reformistas. O fato de que pudesse andar e falar ao mesmo tempo, com muita energia, ao contrrio da maioria da cpula sovitica  poca, tambm pesou, da mesma forma que o imensamente repercutido elogio pblico feito por Margaret Thatcher, quando o definiu como um homem com quem era possvel dialogar. Muito menos divulgado foi o que ela, no seu incomparvel estilo, disse em particular. "Senhor Gorbachev, quero muito que tenhamos um bom entendimento, mas preciso deixar algo claro desde j: eu odeio o comunismo." O espantoso  que Gorbachev gostasse do que Thatcher odiava e no tivesse percebido que o resultado inevitvel de sua tentativa de arejar e melhorar o sistema seria a autodestruio. 
     O comunismo sovitico funcionava, mesmo disfuncionalmente, por ser uma mquina burocrtica na qual os que estavam dentro dispunham de poder absoluto sobre os que estavam fora e todos fingiam que a isso se dava o nome de "estado socialista que expressa a vontade e os interesses de todos os trabalhadores". Para tentar entender como um homem com a capacidade de anlise de Gorbachev acreditava em reativar as origens da recorrente utopia igualitria na distopia totalitria, talvez ajude um exerccio de olhar de dentro para fora, o contrrio do que fazemos habitualmente: mesmo caqutica, a Unio Sovitica que ele queria reformar na maturidade era muito melhor do que aquela em que havia nascido, em pleno perodo da Grande Fome do comeo dos anos 1930. Quase a metade da populao de sua pequena cidade morreu de fome quando os agricultores da Rssia e dos primeiros pases-satlites, como a Ucrnia, foram obrigados a aderir ao sistema de trabalho coletivo. Em outra das sucessivas catstrofes stalinistas, seus dois avs foram tragados pelo gulag, as prises siberianas para a reeducao dos crentes, mesmo que ressabiados, no comunismo   preciso dizer o que acontecia aos no crentes? Plenamente doutrinado pelo mtodo do terror total, que consegue convencer os aterrorizados de que a ele aderiram de livre e entusistica vontade, Gorbachev enfrentou problemas comparativamente banais, como as duas semanas que precisou esperar para ter a primeira noite de intimidade conjugal, por falta de lugar adequado, depois do casamento com a colega de faculdade Rassa. A prpria Rassa, cujo aprumo contribuiu para a imagem de renovao trazida por Gorbachev, s foi usar batom depois dos 30 anos. "Fomos felizes juntos. Ela me ajudou nas horas mais sombrias", escreveu Gorbachev numa autobiografia lanada no fim do ano passado, Sozinho Comigo Mesmo. O ttulo melanclico resume o estado de esprito que Gorbachev, hoje com 82 anos, rejeitado na me Rssia e s vagamente ainda celebrado em pases ocidentais, cultiva desde 1991, quando ele prprio ruiu, depois que seu intuito reformista vrias vezes readaptado ao ritmo alucinante das mudanas, voluntrias e involuntrias, provocou o que parecia impossvel: o desgarramento quase todo miraculosamente pacfico dos pases-satlites da rbita de Moscou, o esboroamento do comunismo sovitico e, por fim, o desfazimento da prpria Unio Sovitica. 
     O vazio do caos subsequente foi ocupado por Vladimir Putin, com seu lupino conhecimento das realidades do poder ao qual foi alado pela admirao da maioria dos russos e no qual permanecer mesmo que ela se esgote. Escreveu Gorbachev no livro Perestroika, Nova Ideias para o Meu Pas e o Mundo, antecipado com exclusividade por VEJA na edio de 4 de novembro de 1987: "Em alguns nveis administrativos, surgiram o desrespeito pela lei e o incentivo ao suborno, ao servilismo e  glorificao. Com justia, os trabalhadores indignavam- se diante do comportamento de pessoas que, desfrutando de confiana e investidas de responsabilidades, abusavam do poder, suprimiam a crtica, faziam fortuna e, em alguns casos, tornavam-se at cmplices  se no organizadoras  de atos criminosos". A quantas situaes, na Rssia e fora dela, isso se aplica, 22 anos depois da era Gorbachev?  


4. BERLIM, A CIDADE ABERTA
1989 - 2013
Quase um quarto de sculo aps o fim da barreira infame, a memria do comunismo virou atrao turstica, o nazismo passou a ser abordado sem tabus e a Alemanha reluta em ser hegemnica.

A ALEMANHA VOLTA A SER UM S PAS
15 de novembro de 1989 
Um dos acontecimentos capitais do sculo XX foi a reunificao da Alemanha, passadas mais de quatro dcadas da diviso entre um lado capitalista, na esfera americana, e outro comunista, sob as patas da ento Unio Sovitica. Em Berlim, as fronteiras ideolgicas encontraram uma correspondncia fsica depois que o regime totalitrio da Alemanha Oriental decidiu, em 1961, retalhar a cidade por meio da construo de um muro, a fim de evitar que as pessoas fugissem para o seu oposto ocidental. O comunismo j havia comeado a ruir quando o muro foi derrubado, em 9 de novembro de 1989, antecipando a unificao formal do pas no ano seguinte.

TRECHO "A queda do Muro serve de emblema para o fim da ideia comunista e demonstra como os poderosos deste mundo no so to formidveis assim. O Muro caiu sem que a Casa Branca fizesse nada, sem que o Kremlin pudesse esboar qualquer gesto a favor ou contra. Uma era acabou em Berlim na semana passada. Uma nova situao mundial nasceu. Como os mais renomados especialistas no puderam prever um desenlace to rpido e incruento,  razovel constatar que no h a mnima certeza de que mundo nascer a partir da Berlim sem Muro.  possvel, no entanto, afirmar que um formidvel problema histrico est prestes a iniciar a nova era  o problema do renascimento da nao alem, da reunificao da Alemanha." 
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MRIO SABINO, DE BERLIM
CNTIA BARROSO ALEXANDER (FOTOS)
     Vinte e quatro anos parece pouco. J quase um quarto de sculo soa longo. Uma vez estabelecida a relatividade, pode-se dizer que, transcorridos apenas 24 anos desde a queda do Muro de Berlim, a memria do comunismo no  mais do que uma atrao prosaica da capital alem, com turistas fotografando os prprios ps sobre uma faixa de paraleleppedos que segue o traado da antiga barreira que separou existncias e tirou vidas. Longe do centro, as sobras do paredo viraram, no geral, suporte para grafiteiros registrados pela prefeitura. H alguns meses, um trecho foi derrubado, para dar lugar a um condomnio de luxo, sob protesto geral. Tenta-se conservar como relquia a ignomnia que urgia ser cancelada h pouco mais de duas dcadas. 
     Dado que o tempo  relativo, transcorrido perto de um quarto de sculo, Berlim ainda est em obras que visam a cauterizar a ferida urbanstica criada pela barreira de concreto e arame que a cindiu em duas, de 1961 a 1989, a fim de impedir que os habitantes da capital do ento satlite sovitico, a Alemanha Oriental, escapassem para a vitrine do mundo livre, o enclave berlinense-ocidental atrs da Cortina de Ferro. Na Europa, no h outra cidade com tantos guindastes dividindo o horizonte e canteiros de operrios desviando carros e transeuntes. A maioria est presente na antiga poro comunista, onde se concentram os prdios que sobreviveram aos bombardeios da II Guerra Mundial e cuja principal artria  a Avenida Unter den Linden, que sai do Porto de Brandemburgo e prossegue at a Ilha dos Museus, formada pelo Rio Spree. cerca de 2 quilmetros adiante. A Unter den Linden  a Champs-lyses de Berlim, embora bem menos monumental do que a parisiense e novamente rival, depois da queda do Muro, da Kurfrstendamm, bem a oeste, cheia de lojas e restaurantes  desaguadouro, naquele memorvel 9 de novembro, de milhares de ento berlinenses-orientais que, com os 50 marcos presenteados a cada um pelo governo da Alemanha Ocidental, buscavam comprar ali uma lembrana do outro planeta. 
     Observada do alto, a Unter den Linden tambm , com a licena metafrica de fcil entendimento, uma Marqus de Sapuca em dia de Carnaval  mas com um desfile de tratores e escavadeiras que se sucedem nas suas evolues mecnicas. Constri-se ali uma linha de metro que, projetada em 1920 (durante a malfadada Repblica de Weimar dos livros didticos, imagine-se), dever ficar pronta perto do centenrio do plano inicial. Em todos os trabalhos em andamento, da remodelao de edifcios  modernizao da rede de transportes, passando pela ampliao do Museu Pergamon, abrigo do magnfico altar grego com relevos que narram a guerra entre os deuses e os tits, o aspecto peculiar so os tubos areos de cor azul e rosa que se prolongam pelos quarteires adjacentes. Eles servem para drenar a gua de imensas poas freticas que se encontram a meros 3 metros de profundidade e, assim, dificultam a tarefa das empreiteiras. H quem confunda, num primeiro momento, os tubos com instalaes artsticas, dada a fama da cidade de ser um centro de experimentao. Pois os tubos so s isso, tubos, e Berlim est muito mais para um sossegado centro europeu dos anos 70 e 80  quando o turismo no era massificado e a invaso chinesa se restringia a uma possibilidade blica  do que para um laboratrio de vanguardas. 
     Os hbitos e costumes na ex-Alemanha Oriental foram parar num museu interativo de 1000 metros quadrados, atualmente o sexto mais frequentado do pas. Mais de meio milho de pessoas foram conhec-lo no ano passado. Trata-se de uma viso divertida e pedaggica do que se costumava chamar de "socialismo real", em que o cotidiano era um teatro do absurdo produzido pela arrogncia da engenharia social. O DDR Museum, nome que remete  sigla, no original, de "Repblica Democrtica Alem", foi aberto em 2006, como o primeiro museu da Alemanha capitalista autofinanciado, o que guarda certa ironia. Na ocasio, vivia-se o fenmeno batizado de "Ostalgia", ou Nostalgia do Leste, e o DDR Museum pegou essa onda de saudade dos ex-alemes-orientais em relao ao seu cotidiano comunista, causada pelo choque com o universo de competio capitalista (j passou, j passou). Para compor o acervo, o fundador do museu, Peter Kenzelmann, recebeu milhares de doaes espontneas de objetos e documentos de gente interessada em preservar lembranas dos velhos tempos. O DDR mantm cerca de 200.000 itens num armazm na periferia, e utiliza 1000 deles para compor situaes e cenrios tpicos da Alemanha Oriental. "Ao contrrio de outras iniciativas semelhantes, que so apenas mostras  de quinquilharias do perodo comunista, ns reproduzimos cientificamente aspectos do cotidiano comunista", diz o diretor Robert Rckel, de 30 anos, com gravidade  e barba  de filsofo, mas disposio de especialista em marketing. 
     Alm de entrar num ambiente que simula um apartamento alemo-oriental  e ouvir, numa sala contgua, o que os outros esto falando dentro dele, tal e qual faziam os espies da Stasi, a polcia secreta , o visitante do DDR Museum abre armrios com roupas, vasculha gavetas com fotografias, inteira-se dos mtodos de educao infantil (nas creches, as crianas eram obrigadas a ir ao banheiro na mesma hora, a lavagem de crebros estendendo-se aos intestinos) e assiste a filmes, como o que apresenta a dana de salo inventada para tentar combater a disseminao do rock'n'roll, prova da decadncia ocidental, no fim da dcada de 50. Uma das atraes mais interessantes  a que coloca o visitante na posio de um diretor de uma fbrica de carros Trabant, o modelinho mixuruca produzido pelo regime. Numa tela, aparece uma lista de objetivos a ser aprovados pelo partido. Feita a escolha de um deles, o "diretor" depara com uma srie de dificuldades que impedem o pleno funcionamento da fbrica  todas fidedignas, como o roubo de estofamentos por operrios, que os revendiam no mercado negro. As sadas so pedir o reforo de soldados ao Exrcito, importar operrios do Vietn do Norte, renegociar com o partido e por a vai. O resultado , invariavelmente, um desastre, de forma idntica ao que ocorria na economia planificada. Um joguinho como esse seria capaz de derrubar a doutrinao marxista imposta a milhares de universitrios brasileiros. 
     Berlim foi interrompida pelo comunismo, e antes dele pelo nazismo, e antes do nazismo pelas iluses prussianas que restavam sob os capacetes pontudos dos soldados do Kaiser na I Guerra Mundial. Hoje, o que se procura  retomar um fio perdido,  encontrar uma trama diferente  ora por meio da recuperao de desenhos de esplendor (a reforma do complexo da Universidade Humboldt e a reconstruo do Palcio Real da Prssia), ora atravs de projetos que a delineiem como a capital da maior potncia econmica da Europa e a quarta do planeta (os arranha-cus horrorosos da Potsdamer Platz). Tudo contrabalanado por uma arquitetura nascida em pranchetas de seguidores da Bauhaus (as reparties da esplanada do Reichstag), para atenuar, na paisagem, o desejo de grandiosidade. Entre um e outro caminho dspar, caixotes envidraados vo ocupando o lugar dos caixes de concreto comunistas, bem como os espaos vazios dos arredores do Tiergarten, o enorme parque pblico do outro lado do Porto de Brandemburgo. Se a Alemanha sofre de crise de identidade, desconfortvel em aceitar o seu posto de liderana no continente europeu e o seu lugar eminente fora dele, o urbanismo de Berlim  o seu melhor espelho. 
     "A ideia de identidade  uma obsesso dos alemes. Teme-se perd-la. A minha experincia, porm,  que a identidade  algo que se vai adquirindo com o tempo e no se perde jamais, ao contrrio da virgindade. Tenho, portanto, vrias identidades", escreveu o cineasta Volker Schlndorff, ilustre morador da cidade. Ele nasceu na Alemanha, estudou na Frana, transferiu-se para os Estados Unidos e, aps a queda do Muro, resolveu fixar-se em Berlim. Os fantasmas do passado alemo j no o assombram mais e, segundo ele, esto muito distantes da gerao hoje na casa dos 20 anos. "Minha filha os conhece, mas isso no a define mais", registrou Schlndorff. 
     Quando o Muro caiu, temia-se o renascimento do nacionalismo alemo e do seu corolrio, o mito da raa germnica superior. Em maio de 1990, no posfcio a uma reedio do seu clssico Ascenso e Queda do Terceiro Reich, o americano William Shirer afirmou: "Unida, a Alemanha ser forte economicamente e, se quiser, militarmente, como na poca de Guilherme II e Adolf Hitler. E a Europa ter de enfrentar novamente o problema alemo. Se o passado fornece alguma direo, a perspectiva no  muito promissora para os vizinhos da Alemanha". Desde ento, ano aps ano, os alemes no perdem a ocasio de desmentir o prognstico. H quase um quarto de sculo, ou apenas 24 anos, so um povo unido, e irmanado  Europa, em busca de uma nova, e boa, acepo para o adjetivo que o define. 
     O nazismo, afinal de contas, foi ponto fora da curva ou o desdobramento da ndole de uma nao? Neste momento, a Alemanha permite-se uma espcie de "hitlermania", sem tabus de nenhuma ordem, que visa a colocar o nazismo e o seu criador como anomalias completas. Quarenta instituies de Berlim promovem exposies, palestras e projees de filmes sobre o aniversrio de oitenta anos da chegada do malvado ao poder. Tambm foram espalhados pela cidade totens com fotografias e instalaes que relembram as minorias perseguidas. O mote  "Diversidade destruda, Berlim 1933-1938". 
     O que era um assunto restrito a cartilhas que remontam ao processo de desnazificao do ps-guerra e a reportagens na rubrica de histria agora est nas ruas  e nas livrarias, na prateleira encostada  de Cinquenta Tons de Cinza. Em agosto, na lista de livros mais vendidos da revista Der Spiegel, figurava um romance intitulado Ele Voltou, de Timur Vermes, cuja pilha na Livraria Dussmann, da Rua Friedrich, diminua consistentemente a cada dia. Ele, no caso,  Hitler. No livro, o ditador acorda em 2011, em Berlim, com dor de cabea. As pessoas com quem fala acham que se trata de um comediante to bom que jamais sai do personagem.  O seu sucesso com frases racistas que julgam ser piada o leva ao YouTube e  televiso. No comando de um programa de entrevistas, ele insulta neonazistas por achar que lhes falta convico  e ganha um prmio de jornalismo por ter falado "satiricamente" do preconceito dos carecas de botas. Os neonazistas, irritados, o espancam. Internado, ele recebe manifestaes de solidariedade e o convite para escrever um livro. Instalado no circuito das celebridades, Hitler pensa em fundar o prprio partido. 
     Mea-se em anos ou sculos, a pedagogia para preservar a lio contra o nazismo jamais incluir um museu divertido como o dedicado ao comunismo. Nem por isso se deve imunizar o mal absoluto da zombaria. Ela  um antdoto poderoso contra os totalitarismos. E, se a preocupao de Shirer ainda procede, a realpolitik  anteparo, porque h a Rssia. A mastodntica embaixada da era sovitica permanece ali, na Unter den Linden, com o anexo gigantesco da companhia Aeroflot  um mau disfarce, convenha-se, para a central de espionagem da KGB e a sua sucednea. O aviso  concreto: mesmo sem o Muro, no importam as pretenses alems, ser sempre preciso combinar antes com os russos. 


5. AS TEMPESTADES NO DESERTO

PAPELO DE UM EXRCITO DE PAPEL
6 de maro de 1991
As foras iraquianas derreteram e foram expulsas do Kuwait invadido por ordem de Saddam Hussein em menos de 100 horas de combate em terra. Eram um exrcito do fim da fila do Terceiro Mundo. Os que no fugiram ergueram as mos com notvel rapidez. O tirano estava contido e a economia mundial, salva de um novo choque do petrleo. Americanos e aliados de outros pases rabes eram recebidos como heris da liberdade. Mesmo numa regio de alta volatilidade, parecia comear uma nova era de menos instabilidade.

TRECHO "As cenas humilhantes da rendio das tropas iraquianas se repetiram. Os soldados aliados surpreenderam-se. Preparadas para combates ferozes em terra, as tropas aliadas encontraram um bando de soldados famintos, vagando pelo deserto  procura de oficiais a quem pudessem se entregar. 'No estamos com medo dos americanos, apenas estamos cansados de guerra', explicava um iraquiano capturado. 'No chegamos a disparar um tiro sequer', contava o comandante de tanque Rasid Salman, depois de uma caminhada de vinte horas no deserto.
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O Oriente Mdio entrou em fase de convulses que fazem empalidecer a primeira Guerra do Golfo para recuperar o Kuwait invadido
VILMA GRYZINSKI

     Comparada ao que veio depois, a primeira Tempestade no Deserto foi de uma simplicidade maniquesta: o Iraque de Saddam Hussein invadiu o Kuwait, um pas vizinho no padro Golfo Prsico, um pequeno areal sobre um mar de petrleo. Os Estados Unidos do primeiro presidente Bush avaliaram o risco para a economia mundial de uma quantidade enorme de um recurso vital nas mos de um nico tiranete, mobilizaram um guarda-chuva de aliados e, no fim de fevereiro de 1991, os invasores iraquianos estavam rendidos ou fugidos, os kuwaitianos viviam a euforia da libertao e o mundo parecia mais estvel. Na sombra, gestavam-se foras tectonicamente violentas. O uso da Arbia Saudita, onde ficam os lugares santos da religio muulmana, como plataforma do contra-ataque americano jamais foi engolido por um profeta barbudo do islamismo militante chamado Osama bin Laden. Originou-se nesse sacrilgio imaginrio o que seriam os atentados de 11 de setembro de 2001 da Al Qaeda, o grupo que ele criou, e estes produziram a mentalidade que levou o segundo presidente Bush a invadir o Iraque para eliminar uma ameaa existencial que ele supunha, equivocadamente, ser maior ainda aos Estados Unidos. Saddam virou gro de areia. Mas a situao de instabilidade permanente em que ficou o Iraque se replica hoje nos pases convulsionados pela Primavera rabe, a onda de protestos e levantes iniciada no fim de 2010 que provocou reviravoltas na Tunsia, no Egito, na Lbia e na Sria. No Egito, o governo americano apostou na verso local do islamismo politizado, a Irmandade Muulmana, cujo fim foi bruscamente precipitado. Na Sria, empurrados pelas atrocidades do regime sobrevivente, os Estados Unidos tornaram-se parte do n cego, apoiando foras rebeldes entre as quais vicejavam jihadistas  moda Al Qaeda. D at um pouco de saudade do mundo simples da tempestade original. 


6. O CORREDOR AUTORITRIO
Financiada pelo dinheiro do petrleo, a "revoluo bolivariana", liderada pelo venezuelano Hugo Chvez, expandiu o populismo na Amrica Latina  e evidenciou a fragilidade da liderana brasileira na regio.
LVARO VARGAS LLOSA

     Com a chegada de Hugo Chvez ao poder, nasceu a nova variante do autoritarismo latino-americano. Conhecida como "revoluo bolivariana" e "socialismo do sculo XX", ela tem quatro caractersticas: a revoluo como pretexto para derrubar as instituies republicanas: a receita energtica, sistema que, em vez de aumentar a produo das riquezas do subsolo, as descapitaliza e malbarata na conquista de clientelas eleitorais; a compra de influncias externas para estender seu modelo aos muitos pases que optaram pela via razovel; e, por ltimo, a inteno de fazer da China um salva-vidas internacional que resolva todos os seus problemas. Durante alguns anos, a sorte pareceu sorrir para o populismo de Venezuela, Equador, Bolvia, aliados ntimos, e Argentina, um amigo prximo. Isso se deveu  bonana das commodities e ao uso de ingressos fiscais extraordinrios (1,4 bilho de dlares desde 1999 na Venezuela) para melhorar a qualidade de vida de uma ampla clientela social e poltica no curto prazo. 
     A Venezuela viu o preo do petrleo subir de 8 dlares o barril para trs dgitos e utilizou 1 de cada 4 dlares das vendas do gigante petrolfero PDVSA para fazer populismo. A Bolvia, graas ao gs, que s requeria abrir as vlvulas, viu sua arrecadao fiscal triplicar em sete anos (os Estados Unidos precisaram de quarenta anos para triplicar a sua). Assim como a Venezuela, a Bolvia ps parte dessa bonana a servio do populismo. Alguns pases populistas, como a Argentina, registraram nesses anos, graas  soja e aos gros, taxas de crescimento econmico de 8% em mdia. No estranha, portanto, que, nos anos que precederam o fim da bolha mundial, nesses pases da esquerda carnvora se registrasse uma queda da pobreza. 
     Mas a miragem acabou. A elevao meterica dos gastos pblicos, o aumento artificial da demanda, as expropriaes e o ambiente agressivo contra o capital, a insegurana jurdica permanente e a retrica antiempresarial incendiria, tudo isso no contexto de uma ofensiva contra a democracia, s poderiam conduzir aos resultados que vemos hoje: inflao, desequilbrio das finanas do estado, descapitalizao da economia, taxas de crescimento muito fracas e muita corrupo. 
     A produo de petrleo da Venezuela passou de 3,5 milhes de barris dirios para 2,6 milhes. O Equador produz 40.000 barris a menos por dia e a Bolvia viu evaporar metade das reservas de gs natural, equivalentes a 4% de seu PIB, em parte desde a nacionalizao. A arrecadao fiscal desses pases j no consegue financiar seu populismo. 
     O investimento privado foi a pique e, com ele, a taxa de investimento geral. Na Bolvia, hoje, a principal fonte de investimento  o estado: o investimento pblico  muito superior ao investimento privado nacional, que no chega a 5% do PIB, e ao estrangeiro. No Equador, o valor do investimento estrangeiro acumulado caiu 40% durante o atual governo. A economia argentina, com escassssimo investimento externo, cresceu apenas 2% no total em 2012. Para compensar a fuga de capitais e a queda acelerada das reservas, a Argentina estabeleceu controles que no eram vistos na Amrica Latina desde Salvador Allende no Chile. O resultado de tudo isso  o sofrimento dos proletrios e o fortalecimento dos grupos de poder prximos dos governos: no caso da Venezuela, a "boliburguesia". 
     Mas as consequncias do populismo "bolivariano" no so apenas as que estes povos padecem. Elas atingiram tambm a regio em seu conjunto. Eu diria que foram trs. 
     Primeiro, a submisso poltica de vrios governos dependentes do petrleo venezuelano, o que se refletiu nos organismos hemisfricos, a comear pela Organizao dos Estados Americanos, onde a influncia chavista foi desproporcional. A aliana entre Venezuela e Cuba controlou a poltica exterior de dezoito pases por meio do mecanismo Petrocaribe, que permite ao Caribe e  Amrica Central adquirir petrleo muito barato, e da Alba (Aliana Bolivariana para os Povos da Nossa Amrica). 
     A segunda consequncia: tornou-se muito difcil para as naes em melhor situao, como as da Aliana do Pacfico (Mxico, Chile, Colmbia e Peru), exportar seu modelo para a regio. Agora que o boom das matrias-primas terminou, as implicaes so evidentes: muitos pases da regio no esto preparados para o que vem a. Isso para no mencionar que a batalha pela democracia liberal sofreu um retrocesso. 
     A terceira consequncia: a fragilidade da liderana do Brasil na Amrica Latina (por sua vez, o vazio deixado pelo pas ajudou a facilitar a projeo excessiva dos "bolivarianos"). Lamentavelmente, a potncia sul-americana no quis assumir a liderana para promover um consenso regional sobre as benesses da democracia, da economia de mercado e da globalizao. Braslia preferiu deixar que os pases governados pela esquerda radical tivessem a iniciativa regional. Agora  tarde porque o Brasil se desacelerou economicamente e perdeu parte do brilho internacional que tinha. 
     Como outras modas autoritrias, a dos "bolivarianos" passar. Mas sua contribuio para o subdesenvolvimento de vrios pases no deve ser esquecida. 

lvaro Vargas Llosa peruano,  escritor e jornalista, autor de numerosos livros sobre economia poltica. Foi nomeado Jovem Lder Global peto Frum Econmico de Davos e eleito pela revista Foreign Policy um dos cinquenta intelectuais mais influentes da ibero-Amrica em 2012.

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 UM PROJETO DE DESESTABILIZAO
12 de maro de 2008
Principal patrocinador poltico e financeiro das Foras Armadas Revolucionrias da Colmbia (Farc), o ento presidente venezuelano Hugo Chvez (1954-2013) disparou uma srie de ameaas contra o governo de lvaro Uribe depois que este ordenou um ataque areo contra um acampamento dos terroristas instalado na selva equatoriana. No bombardeio, acabou morto o segundo nome na hierarquia da organizao, Raul Reyes, de quem o lder venezuelano era amigo. Todo o barulho feito por Chvez em cima do episdio, destacou VEJA, tinha um s objetivo: promover uma escalada militar na regio. Os avanos da Colmbia na guerra contra o narcoterrorismo minavam o projeto de desestabilizao dos governos democrticos do continente alimentado por Chvez.

TRECHO "Sob a fachada da solidariedade bolivariana, Chvez busca estabelecer relaes de dependncia com os vizinhos. Na Bolvia, ele financiou a carreira de seu clone, Evo Morales. Rafael Corra  grato pelo petrleo equatoriano que a Venezuela refina a preos camaradas. (...) Chvez identifica na Colmbia o maior obstculo a seu plano de expanso da revoluo bolivariana, especialmente na Amrica do Sul. O pas  uma democracia, usufrui economia prspera e se tornou aliado-chave dos Estados Unidos. (...) A Colmbia  exatamente o contrrio de tudo aquilo que Chvez acredita e defende. 


